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  • Foto do escritorComunicação da ATI da Caritas Governador Valadares

Relatório da FGV apresenta estudo sobre os impactos do rompimento da barragem de Fundão na vida das mulheres atingidas

Estudo ouviu mais de 73 mulheres, em 19 municípios da Bacia do Rio Doce


Março é o mês em que é celebrado o Dia Internacional da Mulher, ocorrido no último dia 8. Em 2022 a Fundação Getúlio Vargas (FGV) apresentou o relatório “O Rompimento da Barragem de Fundão na Perspectiva das Mulheres Atingidas: Uma Análise de Gênero”, que teve como objetivo analisar como o desastre afeta, especificamente, a vida das mulheres atingidas da Bacia do Rio Doce. 


Questões como “relações econômicas e condição social”, “relações sociais, violência e saúde” e “educação, futuro e resistência” foram analisadas e apresentadas no relatório, que para examinar a situação das mulheres atingidas pelo rompimento, buscou três tipos de fontes de informação, que foram: 1) narrativas das mulheres atingidas, 2) entrevistas com pesquisadores e estudiosos sobre os temas de interesse e  3) pesquisas bibliográficas com foco em desigualdade de gênero, feminismo, mulheres e desastres, entre outros aspectos. 


Para ouvir e colher as narrativas das mulheres atingidas, foram promovidas sete rodas de conversas, que contaram com a participação de 73 mulheres de 19 municípios atingidos. “Os danos gerados pelo rompimento de Fundão são sentidos por toda a população que convive com os territórios atingidos, mas afetam as mulheres de maneira particular justamente pelos papeis sociais a elas historicamente impostos. Este documento analisa essas especificidades. Ao ouvir as mulheres e cotejar suas narrativas com bibliografia e pesquisadoras especializadas, traçou-se um panorama sobre a situação das mulheres atingidas, as especificidades de seus danos, suas demandas e perspectiva”, aponta o relatório”. 


Conceitos como o ecofeminismo e o racismo ambiental são trabalhados brevemente para evidenciar a estrutura social sob a qual se dão tanto o desastre quanto o processo de reparação. Ecofeminismo baseia-se não apenas no reconhecimento das ligações entre a exploração da natureza e a opressão das mulheres ao longo das sociedades patriarcais. Baseia-se também no reconhecimento de que essas formas de dominação estão ligadas à exploração de classe, ao racismo, ao colonialismo e ao neocolonialismo. 


Sobre o conceito de racismo ambiental, desastres em geral tendem a exacerbar situações desfavoráveis e desiguais entre as pessoas atingidas. Isso faz com que grupos historicamente discriminados e vulnerabilizados estejam suscetíveis aos danos mais severos e a processos de reparação mais demorados e menos eficazes.


Dentre as considerações apontadas por meio do cruzamento das informações levantadas por meio das três fontes consultadas, o relatório destacou: 


  • O desastre comprometeu a autonomia financeira dessas mulheres, aumentando seu endividamento, levando muitas a buscar trabalho informal.


  • Há muita discrepância no reconhecimento de mulheres como atingidas se comparado aos homens quando se trata de pagamentos de auxílios financeiros e/ou indenizações por parte do processo reparatório. Muitas foram invisibilizadas ou tratadas como dependentes de seus companheiros.


  • Com menos renda, essas mulheres são levadas a uma situação de menor autonomia e de dependência financeira que gera conflitos, violências, sobrecarga de trabalho doméstico e sobrecarga mental.


  • As instituições responsáveis pela reparação não provêm informação sobre possíveis medidas para ressarcir financeiramente as mulheres atingidas na perspectiva de suas especificidades;


  • As mulheres são socialmente responsabilizadas pelos trabalhos domésticos, e a sobrecarga diminuiu sua autonomia, sacrificando seu lazer e autocuidado em prol das responsabilidades familiares;


  • As mulheres e suas famílias enfrentam uma dieta nutricional pobre após o desastre, aumentando a necessidade de assistência estatal ou social;


  • A perda de espaços de encontro que propiciavam trocas, prazer e lazer acarreta também a perda de suportes emocionais e de espaços de ajuda mútua;


  • As mulheres engajadas na luta por reparação muitas vezes não são reconhecidas como líderes, sofrendo desqualificação e estigmatização; 


  • O desastre aumentou a violência contra mulheres devido à perda de empregos, lazer, perspectivas e aumento do consumo de álcool e drogas;


  • O processo de reparação contribuiu para a violência contra mulheres, negando autonomia financeira e falhando na proteção das mais vulneráveis, agravando o esgotamento e adoecimento;


  • As mulheres enfrentam uma sobrecarga de trabalho não remunerado, exacerbando problemas de saúde física e mental, sem apoio adequado da reparação;


  • A incerteza sobre a qualidade da água e alimentos causa intenso sofrimento e agrava problemas de saúde das mulheres;


  • A desestruturação causada pelo desastre afeta profundamente as perspectivas de futuro das mulheres, e muitas das quais sonham com a retomada de suas vidas pré-desastre;


  • Muitas vezes as mulheres ligam seus sonhos não apenas ao bem-estar individual, mas também ao bem-estar da família e da comunidade, mostrando uma perspectiva coletivista em suas aspirações;


  • Altas demandas nos trabalhos domésticos frequentemente interrompem os projetos educacionais e profissionais das mulheres, prejudicando seu desenvolvimento pessoal;


  • A mulheres desempenham um papel central na educação das gerações futuras, mas o desastre interrompe a transmissão de conhecimentos, prejudicando os vínculos com a ancestralidade;


  • As mulheres são frequentemente culpabilizadas pelos problemas de seus filhos, destacando a necessidade de ações que garantam o bem-estar da juventude atingida pelo desastre.


Ilustração de Carolina Ribeiro. (FGV/2022)

Vozes femininas


O relatório apresenta também as declarações das mulheres, a partir de trechos transcritos que explicitam os danos sofridos em diferentes aspectos. Ao falarem sobre autonomia financeira e não reconhecimento da atividade econômica das mulheres no processo de reparação: 


A gente tivemos tanto prejuízos, nós sabemos que, a gente vendi para o PNAE da escola, a partir  do momento que a lama entrou no nosso plantio, que nós produzimos a laranja, a mexerica, o limão e banana. Nosso prejuízo foi tão grande, até hoje não conseguimo recuperar. Acho um absurdo essa  Samarco, aqui na nossa família, até hoje não vimos um real dessa Samarco.

Aí você vai olhar a renda que você teria seis anos atrás, você não tem mais. Aí vem a pandemia de ficar com essa focinheira o dia todo. É muito triste saber de um dilema desse. O ser humano, enfim, o que a gente precisa é saúde e o dinheiro. Entendeu? Cinco anos atrás e tinha tanto de renda e agora eu tenho quanto? Eu não tenho nada de renda. Eles acabaram com nosso ganha-pão do dia a dia. Aí você tem que se virar para outros lugares. Nessa casa nunca entrou R$ 1 real da Samarco. Estão enrolando a gente para não pagar a gente até hoje É uma falta de respeito muito grande com a população.

A gente tem que se desdobrar. Temos que fazer um bico. Borda uma toalha para vender. Eu pego taboa também, meu primo faz esteira para vender. Aqui também tem artesanato de esteira. É assim, um bico, faz uma coisa, faz outra. Eu vou comprar uma roçadeira, eu tô esperando receber um dinheiro para comprar uma roçadeira. Eu gosto de roçar. Na agricultura eu roço o pasto. Eu faço roçada, com a gasolina, eu sei roçar. Só que aquele negócio, contrata mais homem, tem isso também. Se eu chegar com a minha roçadeira, ‘eu quero um trabalho para roçar’, a diária de uma roçadeira é R$ 150, sendo que o trabalho de um homem braçal é R$ 60. Não vão querer me pagar esse valor porque eu sou mulher, tá entendendo? É assim.

Ilustração de Carolina Ribeiro. (FGV/2022)

Mulheres ouvidas no âmbito do relatório que antes do desastre desenvolviam diversas profissões como feirantes, agricultoras, pescadoras, cabeleireiras, entre outras ocupações que sofreram uma série de prejuízos, e que mesmo sendo reconhecidas pela comunidade como praticantes de tais ofícios, não são vistas pelo processo de reparação.


Muito difícil, viu? Muito pouco. Eles não querem reconhecer a mulher como trabalhadora. Eles não acreditam na capacidade da mulher pescar, na capacidade da mulher colher seu próprio fruto, tá lá plantando a sua própria plantação, eles não acreditam. Eu vejo na cara deles, que eles não querem reconhecer as mulheres.

Outro ponto destacado é que a desinformação colaborou fortemente para a exclusão dessas mulheres de grande parte do processo reparatório, assim como para o não entendimento das especificidades de seus danos.


Nós mulheres não fomos convocadas pra nenhuma reunião. Não procuraram as mulheres para saber como fomos impactadas, nossa associação dentro do assentamento tem mais de 16 anos, e a gente não foi convidada pra nenhuma reunião em nenhum momento. Nossa associação dentro do assentamento foi contemplada com um secador de pimenta, num projeto feito pela “Copterra”, custeado por uma atividade da Renova, de reparação, mas não fomos chamadas a conversar nesse ano. A parte informativa foi e está sendo o principal impacto, pelo menos no meu ver. Porque sabemos que temos direitos, mas como um prazo [prazo de fechamento do cadastro da Fundação Renova] determina se temos direito ou não? Isso não é lógico.

Ilustração de Carolina Ribeiro. (FGV/2022)

Situações como as anteriormente relatadas, enfrentadas recorrentemente por mulheres de toda a bacia do Rio Doce, faz com que algumas atingidas classifiquem abertamente o sistema de reparação como um sistema patriarcal, que opera a partir de uma desigualdade preconcebida de gênero, o que se reflete no não reconhecimento de muitas mulheres como atingidas, no não entendimento das especificidades de seus danos e no acesso limitado a reparação. São muitas as narrativas que explicitam e denunciam essa questão, algumas delas a seguir elencadas:


Pode colocar que a gente foi submetida a um modelo patriarcal no cadastro pois somente o homem teve reconhecimento. No meu caso, até hoje se meu marido não é reconhecido eu não existo pra eles. Isso porque meu negócio é diferente do dele, mas é uma luta para ser reconhecido, até hoje eu não consigo.

Logo no começo, no início do processo de cadastro, a mulher foi muito fragilizada. No começo não queriam reconhecer a mulher, a mulher entrava como dependente do marido junto com os filhos. E essa luta foi a luta nossa junto com a Defensoria Pública, o Ministério Público para fazer valer nossos direitos. Então no começo nós não tinha, a mulher não tinha, praticamente não tinha nem seu direito de voz. Eles só ouviam mais os homens. Mas nós lutamos muito junto com a Defensoria Pública e com o Ministério Público para dar voz à mulher. Aonde que nós tivemos nosso direito de reconhecimento que a mulher ela também trabalha e é independente. Porque eles só queriam reconhecer o homem, que só o homem trabalhava. Mas a mulher também tem seu trabalho. Ela é independente. Eu toda vida fui independente, nunca dependi do meu marido para eu poder ter o meu dinheiro. E eles queriam colocar a gente como dependente dos maridos.

Meu marido é pescador profissional, profissional assim, ele tem a carteira, o protocolo, tem tudo, né? Eu tenho minha carteirinha também de pescadora, só que ele paga o INPS, diferente de mim que eu tenho a carteira, mas não pago INPS (…) Conclusão: quando fizeram o cadastro do meu esposo, me colocaram como dependente do meu esposo. Sim, beleza, só que o negócio é o seguinte, não colocaram que eu pesco, não colocaram que eu faço artesanato. Não me perguntaram o que eu fazia, o que eu tinha de lucro dentro do Rio Doce.

As mulheres atingidas ainda reclamaram que no NOVEL os valores indenizatórios são baixos e as pessoas atingidas muitas vezes ainda têm que arcar por conta própria com os custos de contratação de advogados para as representar.


Eles que impõem para gente uma categoria que muitas vezes não é categoria que você exerce. E se você tem 2 ou 3 categorias, você tem que escolher ou uma ou outra. Muitas vezes a categoria que vem no sistema não é a que você exerce mesmo na sua profissão. Eles não voltam atrás, tem que ser da forma que eles querem. E que seja o valor injusto, é sempre um valor inferior. Pescador informal R$ 4 mil, desconta advogado – 20%, e o imposto de renda, tira 20 mil, 30 mil, 40 mil. Essa indenização é justa pelo que eles causaram?

O relatório aponta também que, na prática, trata-se de um processo de reparação que não se volta aos direitos dos povos e comunidades tradicionais e nem de suas mulheres, como demonstram as narrativas seguintes citadas por mulheres quilombolas.


Mas até agora ninguém recebeu nada da nossa comunidade, nem os pescadores, nem as mulheres, nem os homens. Ninguém aqui foi reconhecido, nem o homem, nem a mulher, as informações só chegaram aqui no final do ano. A situação de Iapu é a mesma do Quilombo Esperança.

Ilustração de Carolina Ribeiro. (FGV/2022)

O relatório também traz depoimentos sobre a sobrecarga doméstica e perda de rede de apoio


Eu acho que teve sim aumento de serviço, porque os homens não saem mais pra pescar, e aí fica mais sujeira, mais bagunça. Com meus irmãos e meus pais dentro de casa sobra tudo pra nós. Mais homem dentro de casa, mais serviço. E também não tá tendo como plantar.

Tô dando mais apoio, cuidando do meu esposo, meu esposo andou dando desmaio também, depois que veio desse serviço aí. Meu esposo realmente não está bem de saúde. Incrível que ele deu dois desmaios, já fiz exame de coração, exame da barriga. E os médicos não sabe o motivo da dor e dos desmaios. Desmaia e quando acorda tá dentro do hospital. Tem sido muito gasto em medicamento. De todas as formas esse dano no Rio Doce está nos prejudicando. De todas as formas que você imaginar. É na saúde, é em tudo.

Empenhadas na tarefa de promover o bem-estar em suas casas e em sua rede de vizinhança, as mulheres atingidas têm sentido o cansaço que este trabalho traz, maximizado pela situação de sofrimento social em que elas e sua rede de sociabilidade vivem devido ao desastre.


Eu acho assim que de maneira geral o que nos desanima na questão desses trabalhos extras é que o cansaço bate. Muitas mulheres aqui têm as atividades com os filhos, costumavam sair com os filhos, atividade de custo baixo de ir na praia, ir no rio, uma atividade mais tranquila. E tanto pelo excesso de trabalho do impacto acabou que inviabilizou isso.

As pessoas atingidas ainda possuem medo de contaminação por estes alimentos, o que faz com que as mulheres não os preparem mais para si e suas famílias.


Quando eu boto um peixe na mesa eu já fico pensando, e não é em mim não gente, é na minha geração, meus netos. Porque realmente está tudo contaminado e é metal pesado mesmo.

Algumas das mulheres escutadas pela FGV ainda relataram que têm precisado cada vez mais da ajuda de amigos, instituições e também do Estado para o provimento de cestas básicas para conseguirem alimentar suas famílias.


Fica, hoje tem que comprar carne. Eu vou ser clara com vocês, o que salva a gente é ovo. Tem que comer ovo, fazer o quê? Hoje não tinha mais peixe para colocar na mesa dos nossos filhos.

Os danos ambientais causados pelo desastre no Rio Doce e afluentes, nas regiões estuarina e costeira do Espírito Santo e em todo o ecossistema, geraram efeitos em cadeia nas relações estabelecidas pelas pessoas com essas localidades e, consequentemente, em suas relações entre si.


Nós antes, no tempo passado, vinha muita gente de fora, meus parente, minhas tia, meus primo. Vinham tudo de fora os parentes da gente. A gente fazia aquela caranguejada, ia na praia tomava banho, ia no rio. A gente mesmo ia lá e pegava e chegava toda molhada e ia cozinhar os caranguejos para eles. A gente comia bastante caranguejo. Era muito bom a vida antes. Levava para casa deles quando eles ia embora. Mas hoje, depois desse rompimento para cá, nem aqui mais os parente não vem. Nunca mais: eu tive distância de filho, de primo, meus irmãos, tia. Ninguém vem mais hoje, acabou aquela farrinha que nós tinha antigamente. (…) Hoje nem os parentes não vem nas casa da gente, porque sabe que está contaminado.

As atingidas relatam diversos fatores que têm interferido no bem-estar de suas famílias e na qualidade das relações intrafamiliares, entre eles, destacam-se problemas relacionados com o comprometimento da renda e do trabalho, a insegurança alimentar, os processos de adoecimento e aumento de estresse, as mudanças de rotina, o processo de reparação, entre outros aspectos.


Eu quase me separei do meu marido, pois temos uma roça e sempre briguei para receber indenização, e apesar da Renova reconhecer, não queria me pagar; e meu marido queria vender e eu não queria, e isso gerou um problema muito sério dentro do casamento.

O desastre não desestruturou apenas o pescador, mas toda a família em si. A gente é igual índio, era muito comum tá junto nessa lida, e agora muitos foram para rua viver uma vida que não era deles, houve impacto muito grande, muitos virou bandido, tem criança de doze anos traficando, pessoas que vi criar e crescer junto com a gente. (…) A gente levava pro mar, eles já aprendiam a pescar, hoje não tem mais isso. E tem crianças de doze anos grávidas, o número de pedofilia aumentou. Criança grávida, prostituindo e traficando.

São diversos os relatos de mulheres adoecidas, sobrecarregadas, deprimidas e ansiosas na bacia do Rio Doce.


Antes a gente tinha uma vida, era muito mais tranquilo. Sabia que ia chegar em casa à tarde, sabia que ia levantar de manhã, sabia onde ia. Hoje não, a gente acorda e fica que nem barata tonta. Antes a gente ia pescar, plantar, hoje não sabemos. Era muito gostoso. Mesmo trabalhando de segunda a sábado a gente não cansava, ia lá domingo de novo, passear. Hoje a gente só vê tristeza, acabou tudo. 

Nesse contexto, existe ainda medo e insegurança quanto às condições de vida futuras, o que também impulsiona ou agrava quadros de adoecimento mentais e físicos dessas mulheres.


Minha irmã mora em Cachoeira Escura e hoje ela falou pra mim que tá muito preocupada, porque todas as pessoas que moram em Cachoeira Escura, a maioria vai morrer de câncer depois do desastre da Samarco. Isso é muito pesado, porque eu pensei que isso vai acontecer dentro da minha casa. 

Sonhos e projetos futuros das mulheres também foram atingidos.


Sonho que o rio volta como era antes. Meus netos tomar banho, a água do rio como era antes. Voltar a pescar. Voltar a fazer tudo que eu fazia antes.

(…) Hoje me bate uma tristeza quando entra dentro do mangue que eu desgramo a chorar, porque da tristeza que eu sinto. Porque eu criei meus filhos todo ali. Toda a vida eu tinha meus caranguejo. Mesmo antes de eu começar a pescar, eu comecei comprando do pessoal e revendendo. Hoje eu sinto muita tristeza. A gente espera sim de um dia recuperar nossos manguezais e nossos rios para os nossos filhos e nossos netos, nossos bisnetos, para no futuro eles terem as mesmas coisas que nós tivemos. A gente espera isso. É uma terra digna e uma água digna do rio para poder pescar, que hoje não tem nenhum peixe. A gente esperamos de recuperar. Meus filhos eu ensinei nos manguezais. Hoje meu neto eu não posso nem ensinar. Porque se pro futuro voltar, ser recuperado, eu posso ensinar minha neta, o que eu aprendi da minha mãe e da minha avó. 

As narrativas das mulheres da bacia do Rio Doce demonstram tristeza e insegurança pelas perdas relacionadas com as práticas culturais vividas cotidianamente, o conhecimento das plantas, dos sabores da alimentação tradicional e das manifestações culturais por parte das gerações mais novas.


Porque o equilíbrio na natureza é nítido, muita cor, muita fartura. O oficio das mulheres. As mulheres passando o ofício de pescador para as crianças. Hoje não tem mais. O adolescente não tem essa oportunidade de ir junto, de tá pescando.

Minha mãe era pescadora nata, pescava pro consumo da nossa família. E o mangue traz muito a memória da nossa infância, todo mundo tinha que ir pescar, ir no mangue mesmo, ver como era o processo, colocar o braço, ver didaticamente como era o processo, mas todo mundo tinha que ter essa experiência, tinha um respeito muito grande pelos ciclos da natureza. Esses aprendizados trazem sabor de infância. Tinha aquele peixe que eu não vi mais, o Miroró, minha mãe fazia.

Ilustração de Carolina Ribeiro. (FGV/2022)


Assessoria Técnica Independente e Registro Familiar


Atualmente a Assessoria Técnica Independente - Cáritas Diocesana de Governador Valadares está em campo para aplicar o Registro Familiar (RF), um formulário às pessoas atingidas para coletar informações relacionadas ao processo reparatório. Por meio do RF, serão coletadas informações sobre a situação dos Núcleos Familiares em decorrência do desastre socioambiental ocorrido em novembro de 2015, bem como suas principais demandas, situação no processo reparatório, vulnerabilidades vivenciadas, qualidade de vida, saúde, trabalho e renda, entre outras questões. 


Haverá ainda coleta de informações relacionadas a gênero e geração, com questões voltadas especificamente às mulheres, caso se sintam confortáveis a responder, mais perguntas relacionadas à criança e adolescentes, sobre a dinâmica escolar após o rompimento, sugestões de medidas de reparação em relação aos danos à dinâmica escolar caso tenha, se atividade de lazer deixaram de ser praticadas, entre outras perguntas


Para acessar o relatório na íntegra, é só clicar AQUI.




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