3º Seminário Abayomi debate rede de enfrentamento ao racismo
- Comunicação da ATI da Caritas Governador Valadares
- há 16 horas
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ATI Cáritas GV ministrou oficina com o tema Racismo Ambiental e Reparação
O 3º Seminário Abayomi, realizado pelo coletivo que leva o mesmo nome, ocorreu na Universidade Vale do Rio Doce (Univale), em Governador Valadares, na última quinta-feira (19). O tema do encontro foi: “Ubuntu - Construindo Redes de Enfrentamento ao Racismo”. O evento contou com a participação de cerca de 600 pessoas, incluindo atingidas(os), membros da sociedade civil, estudantes, professores, entre outros.

O Seminário começou com um café coletivo para as pessoas participantes e depois uma mística elaborada por crianças do Coletivo Abayomi que recitaram uma poesia ao público.
A primeira roda de conversa teve como tema “Saberes e Sabores do Educar”. O diálogo foi conduzido pela liderança quilombola, escritora, agricultora, militante, jongueira, pesquisadora e agente territorial de cultura, Josiléia dos Santos do Nascimento, que representa o Quilombo de São Cristóvão, no Espírito Santo.

A palestrante tratou a respeito da cultura dos quilombos, como o jongo, a gastronomia, a agricultura e outros temas, inclusive apresentou o livro de própria autoria: “Saberes Femininos e Educação Quilombola: afirmação e preservação da identidade e ancestralidade do território Sapê do Norte - Quilombo de São Cristóvão - São Mateus/ES”.
A roda de conversa contou com a mediação da representante do Coletivo Abayomi, Jacqueline Françoa. Antes de iniciar o outro bate-papo, foi lançado o livro digital pelo Coletivo, o: “Racismo Recreativo: Isso não é brincadeira”, que faz parte do Caderno 1 da Coleção Antirracista.
Na segunda parte da manhã, foi o momento de debater sobre: “Racismo, Saúde Mental e Direitos” com a psicóloga clínica e educacional, Sabrina Bertolini Pereira Amaral. Ela é especialista em psicologia existencial e humanista e integrante do Coletivo Abayomi, com atuação no combate ao racismo e fortalecimento da cultura afro-brasileira.

A psicóloga possui estudos independentes na temática de subjetividade e raça, além de também trabalhar com questões de neurodiversidade. É atriz de teatro e autora do capítulo “Racismo Recreativo; adoecimento do Corpo-Território e o Aquilombamento como Epistemologia de Cuidado” do livro Encruzilhadas Culturais, volume 2.
A roda foi mediada pela professora Érika Benigna, do Coletivo, e pelo advogado Marcos André, presidente da Comissão de Promoção da Igualdade Racial da OAB-GV.
A carta compromisso de enfrentamento ao racismo
Ao final da manhã, representantes de diversas organizações foram chamados ao palco para participarem de uma dinâmica para a formação da rede de enfrentamento ao racismo. Junto a isso, foi lida uma carta que afirma o compromisso dos presentes nessa luta.

Nós, instituições parceiras, organizadoras e apoiadoras do 3º Seminário do Coletivo Abayomi: Construindo uma Rede de Enfrentamento ao Racismo, realizado em Governador Valadares (MG), no dia 19 de março de 2026, reconhecemos o protagonismo do Coletivo Abayomi na mobilização social, na formação cidadã e na luta por justiça racial em nosso território. Orientados pelos princípios da filosofia Ubuntu — “humanidade para com os outros” e “eu sou porque nós somos” — assumimos publicamente o compromisso de consolidar uma rede permanente, articulada e propositiva de enfrentamento ao racismo e de promoção da equidade racial.
Comprometemo-nos a:
1. Formalizar a Rede de Enfrentamento ao Racismo, com indicação oficial de representantes das instituições signatárias para sua estruturação e funcionamento.
2. Fortalecer e assegurar o cumprimento dos marcos legais de combate ao racismo e à discriminação racial nas esferas institucional, educacional e social.
3. Promover ações internas e externas de sensibilização, formação e conscientização antirracista, ampliando o alcance do debate público qualificado.
4. Estimular a criação e o fortalecimento de instâncias permanentes de debate, formulação de políticas, produção de estudos e processos formativos voltados à pauta racial.
5. Ampliar e consolidar a Rede, por meio da articulação com novas instituições públicas, organizações da sociedade civil, movimentos sociais, coletivos e iniciativas comunitárias.
6. Apoiar e promover atividades formativas, educativas, culturais e mobilizações sociais organizadas pela Rede.
Firmamos esta Carta Compromisso como expressão pública de responsabilidade institucional, cooperação intersetorial e compromisso ético com a justiça social.
Governador Valadares, 19 de março de 2026
Assinam este compromisso:
● Coletivo Abayomi
● Assessoria Técnica Independente da Cáritas Diocesana de Governador Valadares
● Associação de Catadores de Resíduos Sólidos Reciclando Hoje por um Futuro Melhor (Ascarf)
● Aedas
● Biblioteca Antirracista
● Coletivo Axé Nzambi
● Coletivo Deck
● Coletivo Diversidade
● Conselho Municipal de Educação de Governador Valadares
● Defensoria Pública de Governador Valadares
● Diretoria de Ações Afirmativas – UFJF Campus Juiz de Fora
● Diretoria do Campus Avançado de Governador Valadares - UFJF GV
● Instituto Federal de Minas Gerais – Campus Governador Valadares
● Maracatudo
● Ministério Público de Minas Gerais
● Ordem dos Advogados do Brasil – Governador Valadares
● Projeto Linhas do Bem
● Secretaria Municipal de Educação de Governador Valadares
● Sindicato dos Servidores Municipais de Governador Valadares - SINSEM
● Superintendência Regional de Ensino de Governador Valadares
● Superintendência Regional de Saúde de Governador Valadares
● Universidade Federal de Juiz de Fora – Campus Governador Valadares (UFJF-GV)
● Universidade Vale do Rio Doce
As oficinas do Seminário Abayomi
Durante o período da tarde, foram realizadas 26 oficinas sobre os mais diversos temas que envolvem o enfrentamento ao racismo:
Boneca Abayomi;
Ações Afirmativas no Ensino Superior: cotas raciais, fundamentais legais e implementação;
Práticas Pedagógicas para uma Educação Antirracista na escola;
Cartografias de Sala de Aula;
Racismo Ambiental e os Povos e Comunidades Tradicionais;
Racismo Estrutural e o Direito Brasileiro;
Interseccionalidades: Raça, deficiência e transtornos mentais;
Corpos Insurgentes: Memória ancestral e desobediência cênica;
Biografias negras no Brasil: quem são as(os) protagonistas negras(os) de nossa história?;
Branquitude: Construções históricas e letramento racial;
Descolonizando Saberes: Epistemologias Negras E Indígenas E A (Re) Existência Nos Territórios Educacionais;
Escola de Rua: Oficina de Cultura Urbana;
Jogos Matemáticos Africanos;
Contos africanos e educação antirracista: que história é essa?;
Raça e Reciclagem - "Reciclando Ideias, Valorizando Histórias";
“Exu como fundamento epistemológico antirracista”;
Violência de Gênero: Desafios, Reflexões e Caminhos para a Mudança;
Descentrar a filosofia: questionamentos à hegemonia europeia e introdução a fundamentos filosóficos africanos;
Infâncias e Raça;
Meninas e Mulheres Negras nas Ciências Exatas;
Juventudes e Vulnerabilidades;
Anemia Falciforme: Saúde da população negra e quilombola e seus principais agravos;
Saúde Mental e Racismo;
Racismo Ambiental e Reparação: a luta dos/as atingidos/as de Governador Valadares e Alpercata pelo rompimento da Barragem de Fundão;
Feminismo Negro em diálogo com as formas de mobilização das mulheres negras; e
Confluência: Sabedoria Ancestral e Saúde no Matriarcado Quilombola como Caminhos de Defesa do Território
Racismo ambiental e reparação
A equipe da ATI Cáritas GV ministrou a oficina “Racismo Ambiental e Reparação: a luta dos/as atingidos/as de Governador Valadares e Alpercata pelo rompimento da Barragem de Fundão”.
A atividade contou com a participação das pessoas atingidas e outros membros das comunidades de Governador Valadares. Primeiro foi feita uma introdução sobre todo o processo reparatório, desde o rompimento da barragem até o início das ações do Novo Acordo do Rio Doce.

A participação ativa dos presentes foi essencial para enriquecer ainda mais a oficina. Lideranças atingidas, como as conselheiras Lanla Maria e Joelma Fernandes, trouxeram diversos relatos sobre as dificuldades passadas pelas comunidades que vivem e dependem do rio Doce.
Após essa introdução, foi trabalhado o tema do racismo ambiental e questionado o porquê de alguns grupos sofrerem mais os impactos ambientais do que outros, como é no caso do rompimento da barragem e dos eventos climáticos extremos (enchentes, tempestades, secas, etc). “O rompimento da barragem de Fundão evidenciou a complexidade das situações de vulnerabilidade e agravou ainda mais as condições de vida das pessoas atingidas. A vulnerabilidade é considerada uma condição socialmente construída, que não é igualitária e está interligada às dimensões social, econômica, ambiental, cultural, política, racial e de gênero - e à interseccionalidade entre elas”, afirmaram os oficineiros.
Também foi relatada a conceituação de racismo ambiental e racismo estrutural. Os participantes da oficina trouxeram casos reais que mostram como o racismo influencia até na forma como eles são atingidos.

Dados do Registro Familiar e do Diagnóstico Rápido Participativo aplicado pelo Programa Próximos Passos provaram essas afirmações, como o que mostra que 80% das mulheres atingidas são negras e que apenas 9 mulheres do universo de 1046 foram indenizadas.
Ainda durante a oficina, foram tratados pelos oficineiros e participantes os problemas vivenciados pelos ilheiros, pescadores e agricultores que dependem diretamente do rio Doce para sobreviver. Vários relatos foram feitos pelas pessoas atingidas, que mostraram que, quanto mais vulnerável uma família é, maiores são os danos que ela sofre.
Os oficineiros trouxeram uma entrevista realizada pela pescadora e ilheira de Tumiritinga (MG), Dona Eliane, em 2019. Ela disse à época que: “muitas coisa mudou, porque a nossa liberdade acabou. A gente vivia no rio, não tinha nada, só tinha mesmo o dinheiro do peixe que a gente pegava, mas a gente tinha alegria. A gente plantava na ilha, a gente colhia uma mandioca, uma batata, uma banana, meus neto tomavam banho no rio Doce, meus neto ficavam comigo no barco, dormiam comigo lá, meus amigo. Hoje nada disso tem mais. Eu só fico socada dentro dessa casa aqui. Não saio pra lugar nenhum... pra quê? Pra que eu sair?”

Ainda, foi apresentada uma lista com uma série de danos que as pessoas atingidas relatam que sofreram e ainda sofrem por conta do rompimento. São eles:
Morte do rio;
Falta água para o uso nos cultivos;
Perda de plantios de milho, feijão, banana, mandioca, laranja, mexerica, coco,abacate, limão, quiabo, mamão, manga, fruta-pão, taioba, abóbora, melancia, hortaliças, acerola, pinha, etc;
Desânimo e desmotivação para continuar mantendo as ilhas, pois necessitavam da água para irrigação e não sabiam as consequências do seu uso, assim como ter a certeza de que aquela terra estava improdutiva;
As enchentes atualmente não trazem somente areia e matéria orgânica, mas também rejeito de minério. Os problemas se agravam a cada ano, porque, com as enchentes, vêm o minério, e rejeito; a água passa e ele fica;
A terra ou se tornou improdutiva ou não se produz/desenvolve como antes;
Perda da possibilidade de diversificação da produção;
Plantações rasas, superficiais, não vingam mais;
Perda da possibilidade de pescar;
Tiveram mudanças no meio ambiente que desregularam algumas populações de animais em algumas ilhas, como é o caso das capivaras, cobras e baratas;
Devido às alterações no rio, habitat natural das jibóias, muitas têm passado a circular nas margens dos rios, próximo às pessoas;
As atividades de lazer, como nadar, pescar no rio, fazer encontros e churrascos com amigos e familiares, acabaram;
Problema com as retiradas de areia do rio. Para outras pessoas que também usam o rio como fonte de renda retirarem uma areia de qualidade, tem mudado a área de captação e até as ferramentas. Por conta do rejeito ainda presente no Rio Doce, a captação de areia tem sido feita em áreas mais profundas, o que tem provocado o deslocamento e a perda de área das ilhas;
O rejeito que acaba se depositando ao redor das ilhas e nas margens do rio causa muitos atolamentos, não somente de animais, mas também de pessoas;
À época do rompimento, houve a perda de muitas criações (vacas, carneiros, galinhas, abelhas) assim como animais domésticos, e também muitos animais sofreram abortos;
Perda das casas que estavam nas ilhas;
Assoreamento do Rio Doce;
Perda de tanques de peixes por conta da contaminação e da impossibilidade de continuar a criação;
Muitos ainda não foram indenizados pelas suas perdas;
Hoje é necessário comprar alimentos que antes eles cultivavam;
Muitas pessoas estão adoecidas e adoecendo tanto fisicamente, quanto mentalmente.
Surgimento de muitas rachaduras nos pés, pessoas infartando, alergias, problemas respiratórios causados pela poeira;
Por conta da mudança na alimentação, como, por exemplo, ter deixado de comer peixe com frequência, algumas pessoas têm apresentado alterações nos exames para os níveis de colesterol e açúcar no sangue, consequentemente culminando em doenças como diabetes;
Por conta dos adoecimentos, aumentaram os gastos com remédios, alguns de chegam a gastar mensalmente R$800,00 somente com medicamentos;
Sofrimento mental com o rejeito ainda depositado na UHE Risoleta Neves, onde não houve dragagem total, e no período das cheias, quando as comportas são abertas, o rejeito acumulado é revolvido;
Danos em função das rachaduras que se formaram no solo pelo acúmulo de rejeito, que, pela profundidade, além de correr o risco de alguém se acidentar, ainda é abrigo para animais peçonhentos como cobras e escorpiões;
Dificuldades e receio em navegar no período da cheia por conta do estado que a água fica, que é mais pesada e turva, não é a mesma água de antes;
Empresas que fazem análise da água e do solo, mas que não retornam com os resultados;
Perda de instrumentos de trabalho, como barcos, ferramentas, canos, mangueiras, equipamentos, motor e bomba de irrigação;
Perda de utensílios domésticos, como vasilhas;
Perda de móveis e eletrodomésticos;
Perda de materiais de construção, como madeira e tijolos;
Entupimento constante da tubulação do equipamento de irrigação;
Pessoas que não são da região, que não são ilheiros, têm se apresentado como tal e assim gerando desconfiança e dificultando o acesso às ações de reparação.
Os participantes da oficina responderam sobre o que precisa ser feito para garantir justiça às pessoas atingidas e foi dada a seguinte conclusão:
A partir dos assuntos abordados, é possível afirmar que o racismo ambiental não trata apenas do meio ambiente, mas da forma como desigualdades sociais se conectam com decisões que colocam certas vidas em maior perigo do que outras, reforçando injustiças/desigualdades já existentes.
Por isso, é necessário associar e discutir o direito à Reparação Integral como esse conjunto de ações que deve devolver às pessoas atingidas condições de vida iguais ou melhores do que tinham antes do dano. Ela deve considerar não só os prejuízos materiais, mas também os impactos sociais, econômicos, ambientais, culturais, psicológicos e comunitários.
Assim, reparar os danos significa também promover justiça, equidade e igualdade para as gerações futuras.

Para acessar tudo que foi tratado na oficina, é só clicar neste link e baixar a apostila “Racismo Ambiental e Reparação”, que foi utilizada como material base para a atividade.




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