Lideranças nas comunidades: saiba qual o papel delas na participação social das pessoas atingidas
- Fernando Gentil

- 12 de mai.
- 6 min de leitura
As lideranças nas comunidades têm um papel essencial na participação social de todas as pessoas atingidas. São elas que têm o dever de comunicar para os membros das comissões a respeito das decisões tomadas pelos demais atores do acordo, como o governo federal, estadual e as Instituições de Justiça (IJs).

Além disso, as lideranças precisam levar para os governos e IJs as solicitações das pessoas que fazem parte das comissões. Esses dois fluxos são essenciais para garantir que os problemas das pessoas atingidas sejam resolvidos.
Há ainda as conselheiras e conselheiros do Conselho Federal de Participação Social da Bacia do Rio Doce e Litoral Norte Capixaba (CFPS) e as membras e membros da Instância Mineira de Participação Social (IMPS).
O papel desses representantes e a relação deles com as demais lideranças do território são também essenciais para garantir a participação de todas as pessoas atingidas.
O trabalho de base como mobilização coletiva
O trabalho de base é uma forma de atuação da liderança que parte da realidade concreta das pessoas para promover conscientização, organização e mobilização coletiva.
O objetivo é unir forças em torno de problemas comuns, construir soluções e formar lideranças populares que sustentem a luta por direitos e melhorias sociais.
Essa prática fortalece a consciência coletiva e contribui para a construção de uma sociedade baseada na solidariedade, na participação ativa e na emancipação dos povos.
O trabalho de base parte da realidade concreta vivida pelas pessoas, respeitando seus saberes, ritmos e culturas. Não se trata de aplicar ou executar ideias prontas, mas de construir coletivamente, a partir das experiências e necessidades das comunidades, formas de resistência e transformação.

Ele fortalece a organização popular e promove a construção de um movimento amplo, enraizado nos territórios, que busca transformar a realidade a partir da ação coletiva, e se concretiza por meio das seguintes ações no Território 04:
Rodas de conversa: promovem o diálogo, o compartilhamento de experiências e a memória social;
Mutirões comunitários: fortalecem a solidariedade e a ação coletiva;
Visitas às famílias: permitem conhecer de perto as realidades e necessidades locais;
Escuta nas comunidades: possibilita ouvir com atenção pessoas muitas vezes silenciadas;
Acompanhamento de grupos de mulheres, jovens e agricultores: valoriza lutas e saberes específicos;
Intercâmbio entre pessoas atingidas: permite estabelecer relações com pessoas que passam pela mesma situação para trocas de experiências.
O trabalho de base e a educação popular
Desde suas origens, a educação popular está vinculada às lutas sociais por igualdade de oportunidades e direitos. O trabalho de base é também uma prática que se inspira nos princípios da educação popular, especialmente nos ensinamentos de Paulo Freire. Ela se fundamenta no envolvimento ativo das pessoas no processo de aprendizado, com o objetivo de promover a conscientização, a autonomia e a mudança social.
A educação popular parte da ideia de que é preciso aprender com o povo, com o outro, valorizando sua experiência concreta, e que a transformação social nasce do movimento entre prática e reflexão, e da reflexão para a ação. Por isso, a palavra “popular” cobra força e centralidade. Ela quer dizer que há um povo que se mobiliza, que está em condições de refletir sobre o que sabe e que, ao ampliar seus conhecimentos, pode transformar realidades.

A Educação Popular reconhece que o conhecimento não está apenas nos livros, na escola ou universidades, mas também na vida cotidiana das pessoas atingidas, em seus saberes, histórias e formas de organização. Por isso, o trabalho de base não é apenas ensinar, mas aprender junto, construindo coletivamente caminhos para enfrentar os desafios comuns.
A educação popular acredita nos seguintes princípios:
Toda pessoa é capaz de aprender e também de ensinar.
A aprendizagem acontece em comunidade, por meio da troca de experiências e da construção coletiva do conhecimento.
Os seres humanos são sujeitos da transformação social, capazes de agir sobre o mundo e não apenas sofrer suas consequências.
O diálogo amoroso e respeitoso é a base para a construção do saber.
A educação promove autonomia, fortalece a participação popular e amplia o exercício da democracia.
O reconhecimento e a integração dos diferentes saberes contribuem para uma visão de mundo que valoriza a diversidade.
Esses princípios mostram que a educação popular não é apenas transmitir conhecimento, mas construir juntos, com base na realidade das pessoas. Ela valoriza o diálogo, o respeito aos saberes populares, a escuta ativa, a esperança e o compromisso com a transformação social. Nesse caminho, todos têm algo a contribuir!

A mobilização social na participação social
Já a mobilização social é uma forma de concretizar o direito à participação social. A palavra vem da ideia de “mover algo de lugar”, de mover vontades, despertar consciências e unir forças em torno de um objetivo comum ou de uma demanda coletiva.
Mobilizar não é apenas reunir pessoas em um mesmo espaço. É chamar, animar e organizar a comunidade para que ela compreenda seus direitos, compartilhe suas experiências e aja coletivamente para enfrentar os desafios que vivem. É um processo que constrói consciência crítica, fortalece vínculos e promove a ação transformadora.
A mobilização pode acontecer de várias formas, como:
Campanhas comunitárias;
Reuniões e assembleias populares;
Espaços de formação e troca de saberes;
Participação em conselhos e comissões; e
Ações culturais e educativas nos territórios.
É importante lembrar que a mobilização social tem ritmo e continuidade. Ela não acontece apenas quando há uma demanda. É um trabalho constante, que se constrói no dia a dia, com escuta, diálogo e presença nos territórios. Mobilizar é cultivar relações, fortalecer redes e manter viva a esperança de transformação.
A participação social é um mecanismo essencial para garantir que as pessoas atingidas tenham voz ativa e acesso às informações e decisões relacionadas à reparação dos danos causados pelo rompimento, respeitando suas características e necessidades específicas.

Assim, a participação social não se limita ao ato de estar presente em reuniões ou eventos. Ela envolve o direito de acessar informações claras, compreender os processos, opinar sobre decisões e influenciar diretamente os rumos das ações reparatórias. Isso significa que as pessoas atingidas devem ser reconhecidas como sujeitos ativos, com voz e poder de decisão, e não apenas como beneficiárias passivas de políticas ou medidas.
A liderança como compromisso
As lideranças têm um papel essencial no processo de reparação. Para isso, é fundamental que estejam comprometidas com a escuta, a transparência e o bem comum.
Uma boa liderança se reconhece por suas atitudes e valores. Entre as principais qualidades de uma liderança popular, destacam-se:
Escutar e acolher: estar disponível para ouvir as pessoas, respeitar suas histórias e criar espaços de diálogo;
Ter compromisso coletivo: pensar no bem comum, colocando os interesses da comunidade acima dos interesses individuais;
Buscar informação e formação constante: estar sempre aprendendo, se atualizando e compartilhando o que sabe com os demais;
Atuar com transparência e responsabilidade: prestar contas, ser claro nas decisões e agir com ética;
Valorizar a participação de mulheres, jovens e grupos tradicionais: garantir que todas as vozes sejam ouvidas e respeitadas, promovendo a inclusão e o protagonismo de quem muitas vezes é silenciado.
Liderar significa, sobretudo, estar ao lado do povo, ouvindo, dialogando e buscando caminhos coletivos para enfrentar os desafios do território. A liderança se constrói na prática, com base na confiança, no compromisso e na escuta ativa. Ela não atua sozinha, mas em nome de uma coletividade.
Os representantes do CFPS e da IMPS
Os representantes do CFPS e da IMPS devem levar as decisões tomadas para as lideranças do território, que levarão essas mesmas informações para dentro das comissões. Assim como o contrário, já que vão levar as reivindicações trazidas pelas lideranças para serem tratadas no Conselho e na Instância.
Então, os fluxos para garantir a participação social ativa e informada das pessoas atingidas fica assim:
Decisões tomadas pelo CFPS, IMPS, governos e IJS
Conselheiros e membros do CFPS e IMPS passam a informação para as lideranças territoriais durante as reuniões da Comissão Local do Território 04, que as transmitem para as comissões de pessoas atingidas nos bairros, comunidades e distritos.
Solicitações e reivindicações das pessoas atingidas
Pessoas atingidas passam os pedidos para a liderança da comissão que transmite para os conselheiros e membros do CFPS e IMPS.
Isso tudo é o que dizem os regimentos tanto do Conselho e da Instância como também o das comissões locais.
No Artigo 46 do regimento das comissões locais, que traz os deveres das lideranças que representam as pessoas atingidas na Comissão Territorial, há no inciso I que a liderança deve “repassar para a Comissão Local as informações e dar amplo acesso, além de comunicar sobre as decisões tomadas no âmbito da Comissão Territorial”. Outros incisos do mesmo artigo, como o II, V, VIII, IX e X também trazem deveres que têm a ver com esse repasse de informações.

No regimento da Comissão do Território 4, há no Artigo 10 os deveres das lideranças:
“II - Prezar pela transparência e integração das comunidades do Território 4;
III - Compartilhar todas as informações a que tiverem acesso, sobre a execução dos planos, ações e programas executados no âmbito da Repactuação, com a população atingida do Território 4;
IV - Compartilhar todas as informações a que tiverem acesso, sobre a atuação da Assessoria Técnica Independente, com a população atingida do Território 4”.
Além dessa atribuição de repasse de informações, existem outras que são típicas das lideranças comunitárias.
Ficou com alguma dúvida sobre o papel das lideranças nas comunidades atingidas? Deixe um comentário aqui embaixo!




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